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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Iraquianos que ajudaram EUA na guerra têm dificuldade para conseguir visto para o país

Abu Hassan, sua mulher Umm e os três filhos, esperam visto para sair do Iraque em direção aos EUA. Obstáculos do governo norte-americano no processo para conseguir o visto fez com que o fluxo de iraquianos ao país fosse o menor desde 2007
O medo do terrorismo nos Estados Unidos está quase interrompendo todos vistos para os iraquianos, mesmo aqueles que arriscaram suas vidas ajudando no esforço de guerra dos EUA, tornando-os especialmente vulneráveis antes da retirada militar planejada pelos EUA.

O governo Obama exigiu novas checagens de segurança para os candidatos a vistos, reagindo a um caso no Kentucky em que dois imigrantes iraquianos foram presos por supostos laços com um grupo insurgente, de acordo com oficiais norte-americanos em Bagdá.

Defensores dizem que o governo está ignorando uma diretiva do Congresso para redigir um plano contingencial para expedir vistos caso os iraquianos que trabalharam para o governo dos EUA, especialmente os intérpretes dos militares, fiquem sob uma ameaça crescente depois que as forças norte-americanas forem retiradas no final do ano.

“Esta não é uma prioridade no momento para ninguém no governo”, disse Becca Heller, que administra o Projeto de Assistência aos Refugiados Iraquianos no Centro de Justiça Urbana em Nova York. “Não há pessoas suficientes no governo Obama se preocupando com esse tema.”

O fluxo de iraquianos nos Estados Unidos este ano pode ser o menor desde 2007, quando o governo Bush enfrentou críticas por não lidar efetivamente com a crise dos refugiados causada por sua invasão.

Durante os primeiros nove meses do ano fiscal atual, menos de 7 mil iraquianos foram admitidos nos Estados Unidos. Em março, apenas sete foram admitidos com o chamado visto especial de imigrante – uma classe estabelecida pelo Congresso para mover rapidamente os iraquianos que corriam perigo por terem ajudado o governo norte-americano – e em abril, apenas nove. Em alguns meses do ano passado, mais de 200 chegaram com esses vistos.

O impasse deixou inúmeros iraquianos, como a família Aeisa, numa situação potencialmente perigosa.

Sua história infelizmente é comum: um irmão foi sequestrado e torturado, e os filhos sofreram bullying na escola, acusados de serem espiões até mesmo pelo diretor.

No mês passado eles receberam um telefonema que acharam que jamais aconteceria. Seus vistos haviam sido aprovados, e eles logo estariam a caminho do Arizona.

O pai deixou seu emprego na Zain, uma companhia de celular, as crianças saíram da escola, a televisão, móveis e ar condicionado foram vendidos, e os pertences restantes foram colocados em mais de uma dúzia de malas. A família de cinco pessoas ficou abrigada provisoriamente no depósito de um amigo.

Na semana anterior ao voo, receberam outro telefonema, desta vez com notícias ruins. A partida havia sido postergada indefinidamente e sem explicação.

“É ainda mais doloroso do que todas as ameaças que recebemos”, disse o pai, que pediu para ser identificado apenas como Abu Hassan, por motivos de segurança. “Estamos esperando, 'é isso'.”

A mãe, Umm Hassan, cujo irmão e pai trabalharam para os militares norte-americanos e agora vivem no Arizona, disse apenas: “eu me sinto nauseada”.

Kirk Johnson, que trabalhou para a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA em Fallujah em 2005 e depois fundou o The List Project, um grupo sem fins lucrativos que ajuda iraquianos que trabalharam para organizações afiliadas aos EUA, disse: “basicamente, acho que onde existe uma forma de interromper o programa, há uma disposição para fazê-lo”.

O Congresso exigiu que o Pentágono enviasse, em coordenação com o Departamento de Estado e de Segurança do Território, um relatório ao congresso que contasse o número de iraquianos que trabalharam para o governo dos EUA durante os últimos oito anos, bem como o número dos que foram mortos e feridos.

As agências também foram solicitadas a redigirem um plano para expedir vistos para os casos mais prementes, caso os insurgentes ameacem os que ficarem para trás depois que os militares saírem. Mas nem o governo Bush nem o governo Obama cumpriram com as metas estabelecidas pelo Congresso.

Os números são duros: a partir de 2008, o Congresso expandiu o programa de visto especial de imigrante para distribuir 25 mil vagas ao longo de cinco anos. Depois de quase quatro anos, o governo expediu cerca de 7 mil.

O Departamento de Defesa não conseguiu cumprir com o prazo final, em maio, para entregar o relatório de seus colaboradores iraquianos e oficiais do Pentágono e do Departamento de Estado, que deveria contribuir com o documento, não sabem dizer quando ele será concluído.

Johnson disse que o ímpeto da legislação era evitar uma imensa crise de refugiados como a que se seguiu à retirada do Vietnã. Há alguns anos, depois que as forças britânicas se retiraram de Basra, a cidade portuária ao sul do Iraque, tradutores foram reunidos e assassinados em massa.

Numa entrevista em Bagdá em maio, Eric P. Schwartz, secretário assistente de estado do Escritório de População, Refugiados e Migração, disse que não tinha informações sobre o relatório.

“Sentimos que estamos preparados para lidar com uma variedade de contingências”, disse ele.

Muitos milhares de iraquianos trabalharam como intérpretes para os militares norte-americanos, traduzindo não só palavras mas a cultura local de uma terra da qual a maioria dos soldados não sabia nada.

O major general Jeffrey S. Buchanan, principal porta-voz militar aqui, disse sobre seus intérpretes ao longo dos anos: “nós estamos em muitas situações difíceis juntos”, disse ele. “Então você acaba criando laços com esses caras de um jeito que é incrível.”

Como muitos oficiais, ele ajudou um tradutor de uma estadia anterior a navegar pela burocracia do reassentamento. Questionado sobre o processo, ele disse: “ele chegou aqui. Levou muito tempo.”

Outro ex-intérprete o viu recentemente na televisão iraquiana e o contatou.

“Ele foi capturado pela Al Qaida e foi detido por cerca de sete meses e foi torturado”, disse Buchanan.

O governo dos EUA nunca manteve um registro de quantos iraquianos empregou. “50 mil? 100 mil? 120 mil? Quem sabe?”, disse Johnson.

O governo também nunca contou quantos empregados iraquianos foram mortos ou feridos. Mas está claro que muitos morreram, e muitos mais foram feridos. Uma base de dados mantida pela Titan, uma empresa terceirizada que fornece intérpretes, vazou para Johnson e foi publicada no ProPublica. No período entre 2003 e 2008, o documento mostra quase 300 mortes de intérpretes contratados pela Titan.

Agora, com os militares saindo do país, muitos dos que sobreviveram, ou que ainda trabalham para os norte-americanos, sentem-se abandonados e traídos por um governo pelo qual arriscaram suas vidas, servindo nas linhas de frente por uma causa em que acreditavam. Um deles é Muhammad, que insistiu em ser identificado apenas pelo primeiro nome porque teme por sua segurança, e que trabalhou coo intérprete para o exército de 2007 a 2009.

Muhammad – apelidado de “Matt” pelos soldados com quem trabalhava – teve o visto especial de imigrante negado apesar de ter enviado uma dúzia de cartas de recomendação de oficiais norte-americanos. Uma carta dizia que ele não só havia salvado soldados norte-americanos de uma Humvee em chamas e tratado os feridos, mas também tinha sido sequestrado em 2007 por uma milícia local e interrogado sobre seu trabalho para os norte-americanos. Seu visto foi negado sem que ele nunca tivesse sido informado do motivo.

O Iraque não é tão violento quanto antes, mas os iraquianos ainda são ameaçados por seu trabalho com os norte-americanos. Ghaith Baban, 34, trabalha para a USAID e passou o mês de maio se escondendo depois de encontrar um bilhete em sua garagem que citava o Alcorão e ameaçava sua vida por “colaborar com os EUA”. Ele pediu asilo nos EUA no início de 2009, e continua esperando.

Quando os militares saírem, disse ele, “será o pior momento para as pessoas que trabalharam para os norte-americanos”.

Enquanto isso, a família Aeisa espera o seu prometido voo para o Arizona.

Eles nunca pretenderam deixar o país, e quando parentes que trabalharam para os militares norte-americanos foram para os Estados Unidos, eles acharam que as ameaças terminariam. Mas isso não aconteceu. Seu pitbull, Spider, foi assassinado. Um bilhete foi deixado com os dizeres: “Saiam, traidores. Vocês são espiões para os norte-americanos”. Eles se mudaram várias vezes.

“Nós gostaríamos de poder ficar”, disse Um Hassan, a mãe. “Nós tínhamos uma fazenda, tínhamos uma família normal. Todos os nossos sonhos foram destruídos.”

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