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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

No Cairo, a luta continua


Enquanto centenas fugiam diante do avanço dos blindados da tropa de choque policial, Mohamed Mokbel corria na direção deles. Veterano após dois anos de violentos protestos nas ruas, ele sacou sua máscara antigás e suas luvas protetoras, iniciando mais uma longa noite na sua atual ocupação: atirar cápsulas de gás lacrimogêneo de volta para a polícia.

"Sempre que as pessoas perdem as esperanças, os conflitos se agravam", disse Mokbel, 30, durante um intervalo nos confrontos de uma sexta-feira recente, em frente ao palácio presidencial. "Mas as pessoas que estão no poder agem como se não houvesse crise, continuam disparando mais gás."

Dois anos após a deposição do ditador Hosni Mubarak, ondas de protestos cada vez mais violentas continuam a dizimar o turismo, a abater os investimentos estrangeiros, a aumentar a pobreza e a sufocar as esperanças de um retorno à estabilidade no Egito. Nas últimas semanas, mais de 50 pessoas morreram em confrontos. O mais graduado general egípcio evocou o espectro de um "colapso do Estado" se os líderes civis não conseguirem restaurar a ordem. O ministro do Interior alertou que milícias armadas podem assumir o controle se as suas forças cederem espaço.

Por trás desse caos estão ativistas como Mokbel, que se envolveu com a política na época da revolta da Primavera Árabe contra Mubarak e que diz ainda lutar por seus objetivos democráticos.

Distantes tanto dos novos líderes islâmicos quanto da oposição, os manifestantes se mobilizam repetidamente para contestar o que veem como apropriações do poder, seja pelo governo militar provisório, seja pelo presidente eleito e por seus aliados da Irmandade Muçulmana.

Enquanto a elite política discute questões ideológicas ou os artigos da Constituição, manifestantes como Mokbel dizem manter a luta que motivou a revolta original contra as abusivas forças de segurança de Mubarak. Dois anos depois, dizem eles, as forças de segurança continuam intactas, e relatos de torturas, de extorsões e de força excessiva continuam.

A guerra de rua entre os manifestantes e a polícia representa um duplo desafio para o presidente Mohamed Mursi, um ex-líder da Irmandade que esteve preso sem julgamento no regime de Mubarak. Os funcionários do Ministério do Interior não escondem sua hostilidade pelos políticos islâmicos, e líderes da Irmandade dizem que Mursi tem dificuldades para conquistar a confiança do ministério.

Mas nas ruas muitos se voltaram contra Mursi por acreditarem que ele se aliou às forças de segurança. Ativistas como Mokbel dizem temer que Mursi use a polícia contra seus oponentes. "Eles estão tentando construir um novo regime igual ao antigo", disse Mokbel, que, entre uma batalha e outra, estuda pintura em uma das melhores escolas de arte do Egito.

Os manifestantes, argumentou Mokbel, são os que estão defendendo o Estado de direito, erguendo-se por seu direito à manifestação pacífica. Eles arriscam suas vidas pela causa, pelos companheiros e pelos muitos amigos que tombaram. "Devemos alguma coisa a eles", disse Mokbel. "Não só uma situação econômica melhor, mas um governo que lide com o povo e que não seja autoritário ou repressor."

Nos confrontos com a tropa de choque perto da praça Tahrir, os combatentes são geralmente adolescentes e crianças que parecem passar muito tempo nas ruas. Muitos aparentam estar motivados pela diversão e mal informados sobre política.

Mas Mokbel, parte de uma rede de ativistas mais velhos que se tornou a espinha dorsal dos protestos, elogiou as crianças de rua por sua energia. "Os meninos de rua são os que mais sofrem nas mãos da polícia. Suas reivindicações são poucas -alguma dignidade, respeito da polícia e uma vida economicamente um pouco melhor", disse ele. "Eles estão apenas liberando sua raiva."

Mesmo admitindo que alguns manifestantes inevitavelmente provocam a tropa de choque com pedras e bombas de gás, ele argumenta que é a agressão policial que tem provocado toda a violência. "O fato de a polícia atacar os manifestantes é o que causa o caos", afirmou.

Embora alguns policiais em outras cidades tenham sido mortos a tiros, os manifestantes no Cairo nunca estiveram armados. As pedras que atiram são praticamente inofensivas contra as blindagens, capacetes e escudos dos oponentes, argumentou Mokbel.

"Mesmo por causa dos coquetéis molotov, nem um só policial morreu. Não queremos queimar um lugar que vamos acabar pagando para reconstruir."

Mokbel é filho de um funcionário público. Antes da revolução, ele e sua família viam a política como um caso perdido. Ele ainda rejeita a elite política da oposição. "Ela não representa a opinião da s ruas." O ativista disse não se opor à ideologia islâmica de Mursi e da Irmandade. Quando os políticos islâmicos obtiveram o controle do Parlamento e depois a Presidência, ele esperava que, como vítimas das forças de segurança, eles em breve iriam reformá-las.

Mas agora o monopólio islâmico sobre o poder deixou os ativistas cínicos sobre o processo democrático egípcio. Desde o decreto de Mursi suspendendo a autoridade da Justiça para desafiar suas decisões, a violência cresceu agudamente. "Quando o regime esmaga o Judiciário contra a parede e usa a polícia como ferramenta repressiva, quem vai conduzir eleições?", questionou Mokbel.

Funcionários da Irmandade dizem que uma reforma apressada no Ministério do Interior poderia provocar uma revolta policial num momento em que a segurança pública é frágil.

Em vez disso, após confrontos com policiais que mataram dezenas de civis, Mursi agradeceu a polícia por seu trabalho.

Então, Mokbel novamente pegou sua máscara antigás e saiu às ruas. Provocadores em meio a uma multidão majoritariamente pacífica concentrada diante do palácio presidencial atiravam bombas de gás contra seus muros. A polícia reagiu com gás lacrimogêneo. "Muito gás lacrimogêneo", disse Mokbel, após duas horas devolvendo as cápsulas. "Então tem para todo mundo."

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